domingo, 29 de março de 2009

HOMOSSEXUALIDADE NA TERCEIRA IDADE



Nos últimos anos tem vindo a tornar-se uma questão com crescente visibilidade: a homossexualidade na terceira idade. Agora um jornal brasileiro publicou uma notícia sobre o tema. Na notícia, na senda de estudos e reportagens anteriores, diz-se que "numa sociedade que ainda vê os gays com preconceito, envelhecer pode ser um período de isolamento e desamparo social"


"NUMA SOCIEDADE QUE AINDA VÊ OS GAYS COM PRECONCEITO, ENVELHECER PODE SER UM PERÍODO DE ISOLAMENTO E DESAMPARO SOCIAL"

Há poucos anos, um amigo do escritor pernambucano Paulo Azevedo Chaves, quebrou todos os discos de música popular que mantinha, renunciou à vida "mundana" e entrou para uma igreja evangélica. A mudança teve outra razão, que não apenas de fé. Homossexual, o homem procurou forças na religião para controlar o desejo e deixar de se relacionar com outros homens. "Ele disse que tinha muito medo de envelhecer sozinho, de ficar abandonado. Tenta se relacionar com mulheres", diz Paulo, gay convicto no alto dos seus 67 anos.

Os dois amigos têm trajetórias distintas, mas, cada um a seu modo, exemplifica os dilemas de uma parte da sociedade freqüentemente ignorada.

Não é regra absoluta - como nada pode ser em termos de comportamento humano -, mas a solidão costuma ser um desafio para os homossexuais idosos, pessoas que teoricamente, não têm descendentes e menos ainda amparo legal para questões como a viuvez.

"Além dos problemas da velhice, é comum que haja um afastamento dos membros da família. As amizades são normalmente um substitutivo das relações familiares. Mas a proximidade da morte e o fato de os amigos também estarem morrendo reforçam muito a solidão. São verdadeiras tragédias individuais", constata o escritor João Silvério Trevisan, autor do clássico Devassos no Paraíso, que traça um panorama histórico das questões morais e da homossexualidade no Brasil. Militante notório, Trevisan montou em São Paulo um grupo de voluntários para ajudar homossexuais idosos em estado de extrema solidão.

"Não existem políticas públicas para essas pessoas. Asilos, por exemplo, onde possam ser íntegros permanentemente", diz João Silvério, que não vê nesses espaços a possibilidade de formação de "guetos". Em Berlim, a capital alemã governada por um prefeito assumidamente gay e reduto da maior população homossexual da Alemanha, foi anunciada a construção de um asilo de 150 apartamentos no bairro gay de Schoeneberg. "A primeira geração de gays e lésbicas que não tiveram que esconder sua orientação sexual agora está chegando à idade da aposentadoria", disse o gerente do projeto, Hans-Juergen Esch, ao jornal alemão Bild.

A medida tem como objetivo impedir um fenômeno verificado entre homossexuais idosos: a "volta ao armário". No meio homossexual, "sair do armário" é gíria que designa a revelação da orientação sexual. A segmentação tem respaldo no fato de profissionais que lidam com apoio a idosos se mostrarem intolerantes. Até em Nova Iorque, uma das mecas mundiais da tolerância a homossexuais, uma pesquisa recente mostrou que 52% dessas equipes de assistência social condenam a prática homossexual. Houve o caso de um gay idoso que foi transferido para uma clínica de tratamento mental depois de ter sido flagrado fazendo sexo com um colega. "Mesmo quando há uma aproximação da família, costuma ocorrer uma "blindagem" para que não se saiba a orientação sexual", comenta João Silvério Trevisan. O que entra em questão, portanto, é o direito à plena identidade na velhice.

O relações públicas S.M., de 61 anos, diz que a idade lhe trouxe uma constatação pouco satisfatória: "Sei que meu corpo já não tem apelo e, para não ficar só, preciso recorrer a serviços de prostitutos". Ele faz parte de um grupo de homossexuais idosos que, para conseguir envolvimentos amorosos, precisa frequentar saunas voltadas para o público gay ou "contratar" michês em locais como a Avenida Conde da Boa Vista ou a Conselheiro Aguiar, em Boa Viagem, lugares de ocorrência de prostituição masculina. "Sei que é arriscado, não levo essas pessoas para minha casa. A não ser os rapazes que eu já conheço há tempo", diz ele. "Dificilmente um rapaz me procura. Normalmente, são homens mais velhos", diz M.S., 25 anos, que trabalha como prostituto numa sauna de público homossexual no bairro da Boa Vista.

S.M. diz que, se não recorresse ao pagamento, não teria como extravasar o desejo, "Tem uns rapazes que frequentam minha casa, são casados com mulheres. Depois da transa, costumo colocar uma nota de R$20 no bolso deles", diz ele, que já chegou a pagar R$100 por um programa. "Esse dinheiro já faz parte do meu orçamento mensal", conta. "Pode parecer perverso para muita gente, mas as pessoas têm que entender que a sexualidade não acaba com a idade".

"É muito comum os gays mais idosos se envolverem com prostitutos. Eu, particularmente, não tolero sexo pago", diz o escritor Paulo Azevedo Chaves. João Silvério Trevisan diz que os gays idosos sofrem discriminação nos próprios círculos homossexuais. "Dentro da cultura homossexual, há tês tabus: ser gordo, desmunhecado e velho". Conta ele, que, no momento verifica contradições. "Há garotos aficionados por homens mais velhos. Basta entrar na internet com nick de senhor e constatar a procura". Esses garotos também costumam ser bastante discriminados pelos próprios colegas gays. "Não sei se é uma projeção do meu inconsciente, como se fosse uma busca pelo amor paterno. Mas, desde que me descobri gay, só tenho interesse em homens mais velhos, barrigudos, completamente fora dos padrões de beleza", confirma o estudante de psicologia I.N., 23 anos.

"Sim, a solidão existe. Mas a mim, particularmente, não incomoda. Nunca fui de viver perto da família", diz o escritor Paulo Azevedo Chaves, autor de poemas às vezes homoeróticos, que, depois de ter morado em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo e na Europa, vive hoje num sítio, isolado como gosta.

Homossexual "ortodoxo", como chama, mas hoje, maduro, costuma se envolver com homens bem mais novos, vários deles casados, de vida heterossexual aparente. Ele confirma que o interesse financeiro pontua, frequentemente, a aproximação entre garotos e senhores gays.

"Os rapazes estão muito aberto a experiências sexuais. Dificilmente dizem que não topam. Prefiro pessoas maduras, mas elas são menos disponíveis. Todo mundo sabe que existe sexo com e sem amor. O tesão não acaba com a idade", diz. "Socialmente, os rapazes são mais aceitos quando dizem que se envolvem com senhores gays em troca de pequenas vantagens", diz.


TESÃO MAIS VELHO - Conhecido na sociedade pernambucana, personagem usual de colunas sociais, um empresário do setor agrícola, 60 anos, diz que presentes e favorecimentos são moeda corrente em suas relações. "Embora o corpo, com a idade, perca muito do seu apelo há garotos com grande tesão em homens mais velhos. Do contrário, não se envolveriam com eles. Mas claro que se aproveitam para conseguir vantagens: um presente, ou mesmo a possibilidade de frequentar bons lugares, restaurantes da moda", diz ele, que explica por que prefere não se identificar: "Em sociedade, tudo se sabe. Mas pouco se comenta abertamente. Há muito preconceito e muita hipocrisia", diz.

O empresário diz que não vê mal algum em dar presentes para seus namorados. "O problema é que o gay não está no lado oficial e, portanto, é mais estigmatizado por isso. Vários heterossexuais gastam muito dinheiro com jóias e até carros para suas namoradas interesseiras e pouca gente os critica", diz. "O importante mesmo é não se sentir sozinho", acredita.



Texto extraído do JORNAL DO COMÉRCIO - Recife, nove de Janeiro de 2005.

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3 comentários:

  1. Extremamente elucidativo. Tenho 40 anos, sou gay. Conheço caras com 30-35 anos e já se acham "velhos" e tem um forte receio, medo mesmo, de ficarem solteiros para o resto da vida. Deveriam, estes, lerem matérias como acima.

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  2. Adorei a reportagem e vim me apresentar.Sou aluna de Terapia Ocupacional, estou elaborando meu TCC (trabalho conclusão de curso) e o tema esta relacionado com a homossexualidade na velhice. Gostaria da ajuda de todos que se interessem pelo assunto .Bom, vim pedir a contribuição de vcs. Eu procuro algumas pessoas com 60 anos ou mais,e pesso também para outros que tenham contanto com essa população, para podermos conversar e a partir desta conseguir realizar este trabalho que sera muito enriquecedor e relevante para todos!
    Espero poder contar com vcs! E desde já agradeço
    Paula
    (paula_agy@hotmail.com)

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  3. Tenho mais de 60 anose posso dizer que não me envolveria com pessoas mais jovens apenas por interesse, creio que devemos está com alguem independente de idade que ambos estejam se sentindo bem, agora se rolar algum presente, faz parte da complementação da felicidade. Eu na verdade desde de jovem me sentia feliz ao lado de alguem com mais idade e até hoje fico muito feliz quando encontro, os coroas grisalhos e brancões sempre foi e continua sendo minha grande busca. Manoel

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